6. GERAL 28.8.13

1. GENTE
2. NEGCIOS  NELOREGATE
3. SADE  AS JOIAS DOS COROAS
4. MEDICINA  LIES DE UMA VIDA NA UTI
5. EDUCAO  CANDIDATOS AO OSCAR
6. ESPORTE  BASTO SEM DONO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marilia Leoni e Thas Botelho

SEXO E MACARRO COM LINGUIA
Ir  padaria tornou-se um acontecimento para FERNANDA LIMA, 36. "Os homens chegam reclamando que as mulheres no querem saber de sexo e elas, que eles s pensam nisso", diz a apresentadora do Amor & Sexo. "O programa deu certo porque eu no sou tcnica demais nem grosseira." At outubro, quando a atrao volta ao ar, Fernanda se dedica a outros prazeres picantes, inclusive aos pratos que o marido faz para o prprio programa de TV, sobre culinria para maches. "Dia desses, comi um macarro com creme de leite e linguia. No fico s na salada", garante Fernanda, que tambm d aulas de ioga a jovens de um bairro pobre do Rio de Janeiro. Praticante h quinze anos, ela reconhece que o corpo espetacular tem algo alm da ginstica indiana. "Fao mais umas coisinhas.

LIGA RABE
Para quem veio ao mundo como filho de Michael Jackson, PRINCE, 16, leva uma vida quase normal. A av pede na Justia indenizao de 40 bilhes de dlares da empresa que fazia os shows do cantor. Em retribuio, aparecem mais detalhes constrangedores sobre a vida do astro. A irm de Prince, Paris, recupera-se de uma tentativa de suicdio. O adolescente pratica jiu-jtsu ao estilo brasileiro, j levou multa por excesso de velocidade e est ficando com uma colega de escola, REMI AL FALAH, de uma famlia importante do Kuwait. Tem ambiente no cl: Janet Jackson, tia de Prince, casou-se com um milionrio do vizinho Catar, Wissam al Mana, no ano passado. 

BOCA DE OURO
Engana-se quem pensa que a cantora MADONNA gasta todo o seu tempo fora dos palcos fazendo ginstica, Botox e preenchimento facial. Ela tambm pensa na famlia, com quem passou frias na Europa, e no descuida dos investimentos. Em Roma, inaugurou uma filial de sua rede internacional de academias. Para quem acha que, na sua idade, est na hora de segurar as fantasias de transgressora, Madonna respondeu com uma festa temtica de 55 anos. O tema: Revoluo Francesa. Foi vestida de Maria Antonieta, mas nem a exagerada rainha decapitada sonharia com o enfeitinho de ouro e 24 diamantes com o qual a diabinha iluminou o sorriso 

TODO DIA  DIA DELAS
Pela fama ou pelo casamento, ou por ambos, elas so tudo, menos mes normais. Mas fazem uma fora danada para parecer. KATE e WILLIAM nem sequer chamaram um fotgrafo profissional para a primeira imagem familiar divulgada com o pequeno GEORGE. Prximo passo: William abandona o posto como piloto militar de resgate e assume as funes de prncipe herdeiro em horrio integral. Quem tambm antecipou a volta  vida diante das cmeras foi KIM KARDASHIAN. O av do marido morreu e ela levou a pequena North West, encoberta, ao velrio. Trajes de luto da mame: vestido bem curto e colete de croch com franjas, deixando mais que entrever que falta s um pouquinho para voltar s curvas habituais. Questo inexistente para FLVIA SAMPAIO, me de Balder, o caula de Eike Batista. Dois meses depois do parto, a ex do ex-bilionrio perdeu 9 dos 8 quilos ganhos na gravidez e voltou a ter musculatura abdominal de ao. Apelido que o filho ganhou no parquinho: Baldinho. 


2. NEGCIOS  NELOREGATE
Teste de DNA revela paternidade trocada de touros de elite e abala a credibilidade dos registros de gado no pas.

     O touro Backup  uma celebridade do mundo da pecuria nelore por seu extraordinrio desempenho reprodutivo: aos 13 anos, j forneceu 600.000 amostras de smen e espalhou 480.000 filhos por Brasil, Bolvia e Paraguai. , disparado, o campeo brasileiro na categoria  nunca um touro nacional gerou tantas amostras e tantos descendentes. A dose do seu smen, a mais cara do mercado, custa entre 61 e 89 reais. At a semana passada, creditava-se tamanha capacidade de gerar descendentes ao fato de ele ser filho de Fajardo da GB, o campeo de sua poca. Um teste de DNA, porm, apontou como verdadeiro pai o touro Gabinete do IZ, tambm um membro da elite da categoria, mas dono de currculo bem mais modesto. A revelao caiu como uma bomba na alta sociedade bovina. Alm de abalar a impecvel reputao de Backup, ela lanou suspeitas sobre a confiabilidade dos registros no mercado brasileiro de gado, que movimenta 300 bilhes de reais por ano. Outros exames, parte de um estudo conduzido pela Universidade Estadual de So Paulo, expuseram erros nos registros de mais quinze touros do primeiro time. No caso de Backup, procedente de um criador conhecido e respeitado, o mais provvel  que tenha ocorrido uma trapalhada na marcao de amostras do smen do progenitor. Mas, segundo os tcnicos, em pelo menos dois outros casos, mantidos em sigilo, h indcios de fraude. 
     A descoberta da troca de paternidade dos touros aconteceu por acaso, quando pesquisadores mapeavam o genoma dos maiores reprodutores do pas em busca de maneiras de aumentar a produtividade do rebanho e a qualidade da carne. Esse tipo de aprimoramento gentico  constante no gado de elite, o que torna a rvore genealgica crucial  quanto mais bem cotado o fornecedor de smen, mais valiosos sero seus descendentes. Conhecer os antepassados de um reprodutor tambm  importante porque todo o rebanho nacional de zebus, gnero a que pertence o nelore, tem 170 milhes de cabeas e descende de apenas 6000 animais, todos importados da ndia. Evitar a proximidade de parentesco entre genitores  um quebra-cabeca em que no pode haver falhas. "Acasalar parentes pode afetar a fertilidade do filhote e at causar anomalias", diz Thiago Garrara, diretor da Associao Brasileira de Inseminao Artificial. No caso de Backup, o pai verdadeiro  da mesma "famlia" da me, o que faz mais do que dobrar o risco de problemas genticos. 
     O consrcio de criadores que comprou Backup por 22.400 reais em um leilo j arrecadou mais de 20 milhes de reais com o smen do campeo desde 2001. Ele vale cerca de 6 milhes de reais e desfruta mimos como trs tratadores exclusivos e rao formulada especialmente para ele por nutricionistas. Garrara prev que Backup continuar lucrativo: "Ele j provou sua rara capacidade de procriar". A grande dvida recai sobre os outros touros e os descendentes de Backup, grande parte dos quais pertence ao banqueiro Daniel Dantas. Pecuaristas como ele  os ltimos a saber, como de praxe  certamente tero um retorno mais minguado. 
HELENA BORGES


3. SADE  AS JOIAS DOS COROAS
Testosterona  poder: na maturidade e por algumas dcadas depois dela, os homens tm melhores condies para manter a fora dos ossos, o tamanho dos msculos e at a aparncia mais lisa da pele.
THAIS BOTELHO

     Pobres homens de meia-idade ou idade inteira mesmo. Olham ao redor, vem os clubes das vivas comprovando a expectativa superior de vida das mulheres e coam a cabea, que, quando tem cabelos, est ficando branquinha. E nem podem tingi-los, sob o risco de ridculo. Plsticas e intervenes dermatolgicas, recursos livremente usados por elas, tambm parecem aceitveis para eles apenas em profissionais da imagem. Pois vamos contrariar esse eterno bombardeio de ms notcias e examinar realidades biolgicas habitualmente escamoteadas: os homens envelhecem mais devagar e em condies fsicas menos deletrias do que as mulheres. O motivo est nos ossos, nos msculos e nos hormnios sexuais deles. Ao contrrio do que acontece no corpo feminino, nos homens essas trs bases orgnicas perdem fora mais tarde e em ritmo mais paulatino. Se forem lapidadas, usando-se os recursos que o conhecimento da fisiologia aprimora constantemente, vo melhorar essa vantagem competitiva natural e produzir cenas surpreendentes como as vistas no principal concurso de fisiculturismo da Flrida, que abriu neste ano uma nova categoria, para competidores com mais de 50 anos. Apareceram fortes com certido de nascimento muito mais rodada. "Ningum diz que eu tenho um marcapasso", gabou-se o competidor Carl Cone, 75, que malha pesado trs vezes por semana. " legal mostrar o corpo em vez de s levarmos nossa vidinha de aposentado." 
     "Aps os 70 anos, todos os organismos entram em perda acelerada de massa muscular. No corpo do homem, entretanto, ela ocorre ao ritmo de 3% ao ano a partir dessa idade: j no da mulher,  de 5%", compara Leonardo Piovesan, geriatra e gerontologista do Hospital Oswaldo Cruz e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Os ossos masculinos tambm tm maior capacidade de resistncia ao desgaste da idade. "A partir dos 30 anos, a perda de massa ssea nos homens  de 1% ao ano. Nas mulheres,  de 3,3%", diz Piovesan. Culturalmente, os homens ainda tm outra vantagem. Numa mulher em posio de destaque, as rugas faciais e os cabelos evanescentes do ator ingls Daniel Day-Lewis seriam considerados um desastre. Nele, contribuem para a cara de mau e ajudam a concentrar as atenes no abdmen bem torneado, exibido durante passeio no iate de 200 milhes de dlares do cineasta Steven Spielberg. Harrison Ford, o eterno Indiana Jones, comprovou isso quando esteve no Rio e todo mundo s falou como o setento estava em forma. 
     Ter cromossomos XY implica outra vantagem para quem chega  casa dos 60 ou 70 anos: os homens tm dez vezes mais testosterona, o hormnio que  a prpria essncia da masculinidade, do que as mulheres. Alm de todos os conhecidos efeitos sobre o mecanismo sexual, a testosterona estimula a produo de colgeno e de gordura nas glndulas sebceas. "Esse  o motivo pelo qual a pele dos senhores  mais elstica e menos vincada do que a das senhoras", diz a endocrinologista Ruth Clapauch, vice-presidente do departamento de andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. 
 esse hormnio que determina as caractersticas fsicas do sexo masculino, como msculos e ossos mais resistentes, inclusive e especialmente na maturidade. To bem-dotados pela natureza,  natural que muitos homens queiram manter seus estoques em dia quando a testosterona e outro hormnio essencial na manuteno da vitalidade, o GH, comeam a ratear, buscando alternativas sintticas. " uma prtica perigosa. A testosterona e o GH sintticos podem sobrecarregar o fgado e causar acmulo de gordura nas artrias. Eles s devem ser receitados quando h uma deficincia significativa desses hormnios no organismo", orienta o neuroendocrinologista Malebranche Cunha Neto, do Hospital das Clnicas. "Eles podem at provocar um crescimento muscular, mas s se associados  prtica de exerccios. Mesmo assim, o preo, para a sade, pode ser alto." 
     Preo certamente no seria um problema para o investidor ingls Roger Jenkins, 57, que j foi o executivo mais bem pago do Barclays e hoje recarrega os cofres e os msculos entre Brasil e Oriente Mdio. Atleta olmpico na juventude, ele mantm um regime rigoroso de exerccios e tem provavelmente o corpo mais bem cuidado do mundo das finanas  e no faz feio ao lado da atual namorada, a venezuelana Aida Yespica. Uma hora diria de musculao bem dirigida tambm levou o perfeccionista Giorgio Armam, que criou um imprio da moda de 7 bilhes de dlares, aos quase 80 anos ainda em condies de usar sunguinha sob o sol do Mediterrneo. "J teramos fechado se no pensssemos no futuro", costuma dizer sobre seu competitivo ramo de negcios. Pensem nisso. 


4. MEDICINA  LIES DE UMA VIDA NA UTI
ADRIANA DIAS LOPES
     Aos 69 anos, o cardiologista paulista Elias Knobel acumula duas slidas carreiras. Em 1972, fundou a UTI do Hospital Israelita Albert Einstein, em So Paulo, onde ocupou o cargo de diretor ao longo de 32 anos. Ele foi pioneiro ao liberar visitas na UTI, marco de humanizao na rea de medicina intensiva. Atualmente, ocupa a vice-presidncia do hospital. Knobel  tambm um timo escritor. Com dezoito livros publicados, j vendeu 100.000 exemplares e acaba de lanar Vivncias e Confidncias  Histrias Mdicas. Em entrevista a VEJA, Knobel faz uma anlise delicada de sua profisso e relembra, com emoo, um dos momentos mais tocantes de seu mais recente trabalho  sua relao como mdico com a morte do pai, vtima de problemas circulatrios.

"MEDICINA BUSINESS
Meu maior patrimnio profissional  ter me formado no tempo em que o cuidado central da medicina era o paciente, e no o retorno financeiro trazido por um procedimento. Salvo em algumas situaes, vivemos em um momento que defino como "medicina business". Os grandes centros mdicos procuram, acima de tudo, bons resultados econmicos com rapidez e eficincia. O que interessa  atender um nmero enorme de pessoas ao mesmo tempo. Os tratamentos tm de ser extremamente objetivos. Os hospitais esto escravos das planilhas e os mdicos cultuam exageradamente os protocolos. Costumo dizer que os problemas em minha profisso se explicam por meio de quatro palavras que comeam com a letra "d". O paciente est despersonalizado, o mdico est desprofissionalizado, a assistncia mdica est desumanizada e a medicina, descaracterizada. Essa  uma postura americana, que o Brasil adotou em cheio, sobretudo na ltima dcada. No d para ser poeta. Afinal, a medicina tem de ter um resultado financeiro para se sustentar e crescer.  possvel ter lucro considerando o paciente no como um nmero  talvez um pouco menos de lucro, claro.  preciso encontrar um meio-termo. Caso contrrio, a qualidade degringolar rapidamente. Em vez de salvar vidas, a medicina passar a p-las em risco. 

O TOQUE DAS MOS 
O refinamento tecnolgico ocorrido na rea de diagnsticos nos ltimos anos mudou o rumo da medicina, para melhor, evidentemente. H aparelhos que identificam tumores minsculos e evitam mortes. H exames que detectam problemas que o toque da mo do mdico e a conversa no conseguem. Mas os mdicos esto abusando desses exames porque avaliar o paciente com o simples toque da mo no rende nada aos laboratrios e aos hospitais. Cerca de metade dos exames de ressonncia magntica no precisaria ser feita  o resultado  absolutamente normal. Outro exemplo: 40% dos pacientes que chegam ao consultrio com dor torcica no tm problemas de corao. Ou seja, no precisariam ser submetidos a exames de imagem. Uma conversa j bastaria. 

O VALOR DO TEMPO 
O maior defeito da "medicina business"  o desprezo pelo tempo. Uma consulta, por exemplo, seja ela no consultrio ou no hospital, no deveria durar menos de trinta minutos. A mdia no Brasil e nos Estados Unidos, no entanto,  de quinze minutos. Outra situao inadequada  o modismo atual de os mdicos encaminharem seu paciente para assistentes antes de chegar a ele. Eu poderia ter um, se quisesse. Conseguiria atender um nmero muito maior de pessoas, mas sem a mesma qualidade. Desse jeito,  praticamente impossvel lidar com o emocional do paciente. Em muitos lugares, o mdico virou um transcritor de receita mdica. Em geral, um paciente que chega ao consultrio com dor no peito  submetido apenas a uma avaliao mais bvia e automtica. Checam-se taxas de presso arterial, colesterol, tabagismo e hbitos alimentares. Na maior parte dos casos, no se investiga uma questo to ou mais perigosa ao corao  o fator emocional. O paciente est deprimido? Ansioso? Sofre de pnico? Tais fatores, por si s, aumentam o risco de infarto em cerca de 30%. Mas no h aparelho capaz de medi-los.  preciso ter tempo para isso. Nem sempre consigo manter essa postura, no entanto. As vezes sou obrigado a pedir uma quantidade enorme de exames porque "no fica bem" no pedir. O paciente e os familiares insistem muito. 

MDICOS IMPORTADOS 
Muito se tem discutido sobre a nacionalidade dos mdicos estrangeiros que viro trabalhar no Brasil sob a organizao do governo federal. Cubanos? Espanhis? Acredito at que os cubanos poderiam ter uma noo melhor da medicina de base do que os europeus. Mas a questo a ser tratada deve ser outra. Quais so as condies para esse mdico trabalhar no Brasil? Apenas metade das cidades do interior brasileiro tem laboratrios e hospitais  

"UM PATIFE" 
Trabalhar em uma UTI transforma qualquer ser humano. No incio, eu me sentia poderoso ao ser o responsvel por decises de vida ou morte, em um contexto extremado. Depois, no dia a dia, ao presenciar tantas perdas e sofrimentos, me tornei um choro. Sou um patife. Certa vez, um grande amigo meu, dez anos mais novo, paciente da minha UTI, teve cncer de pulmo. Pouco antes de morrer, ele me chamou. Queria se despedir. No fui. No consegui. s vezes cogito deixar de tratar pacientes graves para parar de ver o que vejo. Quando penso em fazer isso, porm, lembro do meu maior prazer na medicina. O tte--tte com o paciente. Qual  o meu crculo de amizades? Os pacientes. Costumo, inclusive, fazer uma coisa pouco ortodoxa. Eu me abro com eles. Digo que estou com enxaqueca, comento alguma viagem que fiz. E assim estabeleo relaes de profunda amizade com eles. 

O CASO MAIS DELICADO 
A doena de meu pai me fez sentir profundamente impotente. Ele sempre falou para mim: "Estou tranquilo, voc vai me ajudar no dia em que eu estiver mal". Meu pai morreu em 22 de maio de 2011, em decorrncia de complicaes circulatrias, aos 99 anos. Seria praticamente impossvel viver alm disso. Ele ficou quatro anos lutando contra a doena. Nos ltimos meses, quando ele j estava semiconsciente, cheguei a autorizar uma transfuso de sangue para aplacar uma hemorragia intestinal, circunstncia em que o procedimento no teria mais efeito algum. Ver meu pai naquela situao me fez refletir muito sobre o fim da vida. No sou religioso. Mas passei a me perguntar: ser que tenho direito de decidir sobre o fim de uma pessoa? Ser que no h alguma razo para um paciente permanecer vivo mesmo sem condies de interagir? No h um raciocnio cartesiano quando se lida com tais questes.


5. EDUCAO  CANDIDATOS AO OSCAR
Dois brasileiros figuram na lista de candidatos  maior honraria da matemtica no mundo. Contribuiu para o feito o trabalho de um instituto que est formando uma elite naquela que  a cincia campe de notas vermelhas no pas.
HELENA BORGES

     Figurar nessa lista j , em si, uma glria. Mas os brasileiros Fernando Cod, de 33 anos, e Artur vila, de 34, candidatos ao prestigioso prmio Fields, o Oscar da matemtica, tm motivos para uma dose extra de empolgao. So boas, muito boas, as chances de eles levarem a estatueta para casa  ou melhor, as medalhas. So quatro, entregues a cada quatro anos a matemticos de at 40 anos que tenham surpreendido a academia com resultados inditos e revolucionrios. A cerimnia ser no ano que vem, na Coreia do Sul, depois do encerramento do Congresso Internacional de Matemticos (Cod foi convidado a proferir uma das palestras do encontro, algo que vila tambm fez em 2010, quando figurou como nico palestrante brasileiro). Os Estados Unidos, com catorze medalhas, so os grandes campees dessa competio. A Frana vem logo depois, com dez vitrias, seguida pela Rssia e pela Inglaterra, ambas com seis. Como o Brasil, pas sem nenhum destaque nas cincias exatas, entrou nesse clube? A resposta est aos ps do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, no prdio do Instituto de Matemtica Pura e Aplicada (Impa), o centro de estudos onde os alunos se formaram e onde, brincam eles, s entra quem no  muito normal. 
vila e Cod se beneficiaram da estratgia do Impa para identificar e incentivar gnios da cincia desde muito cedo. O talento do primeiro foi descoberto nas olimpadas de matemtica, e o pendor de Cod para a cincia desabrochou quando ele foi convidado para um curso ainda no 1 ano de faculdade de engenharia. Os dois contaram, ainda, com uma importante vantagem competitiva: o estmulo da famlia, outro fator que a experincia demonstra ser imprescindvel na formao de campees. Os pais de vila so funcionrios pblicos formados em contabilidade. Estimulado por eles, o estudante, j aos 5 anos, ganhava livros de matemtica de sries mais avanadas porque achava os seus fceis demais. Aos 16, recebeu sua primeira medalha de ouro na Olimpada Internacional de Matemtica (IMO) e decidiu abandonar as competies. "No vi sentido em estar na seguinte. Queria desafios maiores", diz. 
     Desinteressado da escola ("Faltava  metade das aulas"), foi aprovado para o mestrado do Impa antes mesmo de prestar vestibular. Conquistou o Ph.D. aos 22 anos e mudou-se para Paris, onde trabalha no Centro Nacional de Pesquisa Cientfica. Atualmente, divide-se entre os dois pases. "Paris  o centro nervoso da matemtica mundial. E no Rio tenho o instituto, que me possibilita desenvolver projetos pessoais.  a combinao perfeita", comemora vila, que centra sua pesquisa nos sistemas dinmicos, rea que avalia as condies do presente para antecipar o que esperar do futuro. 
     Cod, por sua vez,  filho de fsicos (quando ele nasceu, o casal cursava doutorado em So Paulo), aprendeu a ler sozinho e aos 6 anos j lia revistas e jornais de todo tipo. Em 1999, concluiu simultaneamente a graduao j como  matemtico na Universidade Federal de Alagoas e o mestrado no Impa. A, fez as malas e foi para os Estados Unidos cursar doutorado em Cornell e ps-doutorado em Stanford. Atualmente, trabalha como pesquisador no Impa e orienta oito doutorandos. O objeto de seus estudos  a geometria diferencial, e seu maior trunfo foi ter solucionado um problema que permanecia em aberto fazia quase cinquenta anos. 
     Fundado na dcada de 50, o Impa, instituio sem fins lucrativos financiada sobretudo por verbas pblicas, sempre desfrutou prestgio e respeito, mas por muito tempo ningum com menos de 20 anos pisou em seus corredores. Nos ltimos dez anos, iniciou a guinada que permitiu colocar jovens brasileiros no Olimpo da matemtica avanada: abriu as portas para talentos potenciais, prodgios adolescentes pescados no mar de notas vermelhas da educao nacional. O maior celeiro de crebros privilegiados so as olimpadas que o instituto organiza anualmente, uma disputa entre escolas da qual saem os integrantes da seleo brasileira na Olimpada Internacional de Matemtica. Boa parte dos medalhistas vai parar nas salas de aula do instituto, onde o nvel de aprendizado independe de idade ou de diploma convencional. Outras tticas de cooptao de prodgios tambm so usadas. "Buscamos exemplos nos pases bem-sucedidos em atrair alunos que se destacam", explica o diretor do Impa, Csar Camacho. Da Rssia veio a inspirao para o encontro anual dos mais bem colocados em olimpadas  a convite do Impa, eles passam uma semana das frias escolares mergulhados em aulas, problemas e projetos. Parece programa de ndio? Pois a garotada, entre 11 e 18 anos, adora. "Pude conhecer gente da minha idade que gosta de matemtica e perceber que no estava sozinho no mundo", diz o carioca Alessandro Pacanowsky, que, aos 17 anos, concilia a 7 srie no Colgio Militar com cursos no instituto. O terceiro encontro do gnero aconteceu em julho, em um hotel de Nova Friburgo, na serra fluminense, com 200 participantes que a cada dia recebiam um desafio diferente para ser solucionado at a hora de dormir. "H momentos divertidos, claro, mas o melhor  o nvel das aulas, muito mais alto do que na escola", explicava Andr Bernardes, 15 anos, referindo-se a atividades como noites ao telescpio estudando orbitais. Outra estratgia  importar grandes nomes da pesquisa mundial para relatar sua trajetria at o topo. O franco-alemo Wendelin Werner, de 44 anos e ganhador da medalha Fields em 2006, esteve no Rio em maio para falar aos alunos de mestrado do Impa. A VEJA, ele contou como nasceu seu interesse pela matemtica. "Aos 10 anos, eu queria ser jogador de futebol. A, um grupo de cientistas deu uma aula no meu colgio e pensei: isso  muito mais interessante do que correr atrs de uma bola", lembra. 
     Segundo a instituio, cerca de 10% dos alunos de mestrado vo trabalhar em empresas privadas. "Eles se tornam timos engenheiros, economistas, cientistas", orgulha-se o diretor. "So profissionais com um parafuso a mais." Mas futuro profissional no  o que motiva os meninos prodgios que entram no instituto  eles querem mesmo  calcular. "S quando comecei a fazer as aulas avanadas entendi que a matemtica  muito mais interessante e maior do que a decoreba. Exige criatividade", diz Daniel Rocha, de 16 anos, que concilia o 2 ano do ensino mdio em Jacarepagu, subrbio do Rio, com o curso de mestrado no Impa  e o caula da turma. "Passo at dez horas mergulhado em problemas e no me canso", afirma. E o Oscar vai para... 


6. ESPORTE  BASTO SEM DONO
A ausncia de medalhas no Mundial de Atletismo de Moscou  a antessala do fracasso da equipe brasileira em 2016 na modalidade mais nobre de qualquer Olimpada.
ALEXANDRE SALVADOR

     A ltima esperana da delegao brasileira de ganhar uma medalha no Mundial de Atletismo de Moscou foi ao cho junto com o basto que escapou das mos da paranaense Vanda Gomes durante a final do revezamento 4 x 100 metros feminino, no domingo 18. O erro custou um possvel segundo lugar e a chance de salvar um desempenho geral ruim. Foram seis finais sem nenhum pdio, o que repetiu a escassez de medalhas dos Jogos de Londres. A falta de vitrias  um indcio preocupante para um pas que est a menos de trs anos de uma Olimpada em casa, no Rio. Com exceo de alguma grata surpresa, h o risco de a participao do atletismo brasileiro em 2016, na mais nobre modalidade do programa olmpico, terminar com um rotundo zero. 
     Os resultados em mundiais  haver outro em 2015, em Pequim  representam um confivel termmetro usado pelas potncias esportivas para estabelecer metas olmpicas. As marcas fracas do atletismo brasileiro pedem reviso de planos. "Avalivamos a possibilidade de medalha em trs ou quatro provas", diz Marcus Vincius Freire, diretor executivo de esportes do Comit Olmpico Brasileiro. E agora, o que fazer? 
     A dificuldade do pdio no pode ser atribuda  falta de investimento. Em 2013, o atletismo foi, ao lado da natao, do jud e do iatismo, a modalidade que mais recebeu verbas federais por meio da Lei Agnelo/Piva: 3,5 milhes de reais. Alm disso, em maro a Caixa Econmica Federal renovou um contrato de patrocnio de quatro anos com a Confederao Brasileira de Atletismo por 22,5 milhes de reais anuais  valor equivalente ao que recebeu a federao americana de atletismo com patrocnios no ltimo ano. A questo  como se usa o dinheiro  a maior parte dele  destinada aos atletas que j esto competindo, deixando  mngua a formao de novos talentos. " preciso formar um volume maior de atletas de ponta para no ficar dependente de resultados espordicos conquistados pelos poucos acima da mdia", afirma Joaquim Cruz, medalha de ouro nos 800 metros em 1984, hoje dedicado a descobrir jovens atletas nos Estados Unidos e no Brasil. 
     Cabe, por justia, pr o pastelo do 4 x 100 feminino em perspectiva. Derrubar o basto  um erro que faz parte do esporte, assim como queimar uma largada. Em 2011, Usain Bolt foi desclassificado na final dos 100 metros rasos no Mundial de Daegu, na Coreia do Sul, por se adiantar ao tiro. Na ausncia do campeo, o tambm jamaicano Yohan Blake venceu a disputa, comprovando que a consistncia esportiva de um pas tambm se constri com boas peas de reposio. O Brasil no tem isso, nem mesmo atletas-ncora que, no incio da Olimpada do Rio, possam servir de im para o pblico e incentivo para os outros atletas. Em Londres, a heptatleta Jessica Ennis e o fundista Mohamed Farah (ouro nos 5000 e 10.000 metros) fizeram o Reino Unido se levantar. H quem aposte em Fabiana Murer, do salto com vara, vencedora no Mundial de 2011, que parece ter conquistado uma sobrevida, mas tem o mau hbito de culpar o vento quando no consegue ultrapassar o sarrafo. O prognstico, enfim,  tristemente plido. No lugar de desenvolver um programa esportivo bem-sucedido e depois coro-lo com a realizao da Olimpada, o Brasil comeou pelo fim. Como admitiu o prprio prefeito do Rio, Eduardo Paes, em entrevista ao jornalista Juca Kfouri, da ESPN Brasil, na ltima semana, em um laivo de sinceridade, tal opo  "uma vergonha". E o basto fica no cho. 

UM BOM TERMMETRO PARA A OLIMPADA
Os resultados obtidos nos mundiais de atletismo so um indicador confivel para prever o desempenho - historicamente ruim - nos Jogos, como mostra a trajetria brasileira nos ltimos quatro ciclos olmpicos.

Mundiais de atletismo 1997 | 1999
Ouro | 0 | 0
Prata | 0 | 2
Bronze | 1 | 1
Olimpada  Sydney 2000
Ouro | 0
Prata | 1
Bronze | 0

Mundiais de atletismo 2001 | 2003
Ouro | 0 | 0
Prata | 0 | 1
Bronze | 0 | 0
Olimpada  Atenas 2004
Ouro | 0
Prata | 0
Bronze | 1

Mundiais de atletismo 2005 | 2007
Ouro | 0 | 0
Prata | 0 | 1
Bronze | 0 | 0
Olimpada  Pequim 2008
Ouro | 1
Prata | 0
Bronze | 0

Mundiais de atletismo 2009 | 2011
Ouro | 0 | 1
Prata | 0 | 0
Bronze | 0 | 0
Olimpada  Londres 2012
Ouro | 0
Prata | 0
Bronze | 0

O RISCO DE FAZER FEIO EM CASA
Ao falhar em Moscou, o Brasil parece estar na contramo do desempenho dos ltimos quatro pases-sede

AUSTRLIA
Mundiais 1997 | 1999 | Olimpada 2000
Ouro | 1 | 1 | 1
Prata | 1 | 1 | 2
Bronze | 2 | 2 | 0

CHINA
Mundiais 2005 | 2007 | Olimpada 2008
Ouro | 0 | 1 | 0
Prata | 1 | 1 | 0
Bronze | 0 | 1 | 2

GRCIA
Mundiais 2001 | 2003 | Olimpada 2004
Ouro | 1 | 1 | 2
Prata | 2 | 1 | 2
Bronze | 2 | 3 | 1

GR-BRETANHA
Mundiais 2009 | 2011 | Olimpada 2012
Ouro | 2 | 2 | 4
Prata | 2 | 4 | 1
Bronze | 2 | 1 | 1







